O MAR É O MESTRE

E é por isso que acredito o surf pode salvar a humanidade.

Afinal, a obediência – o saber obedecer – pode ser uma ferramenta potente de transformação, e se o surfista não souber… Ele ficará entre nós por muito pouco tempo. O mar nos deixa vulneráveis, e vulnerabilidade é poder.

Quanto o mestre se apresenta através de suas sinuosas e poderosas ondas você nunca deve bater de frente e sim escolher como saíra de seu caminho, por baixo, por cima ou se preferir ser humilhadamente empurrado e surrado no cilindro de água que servirá apenas para reforçar quem é que manda.

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Diante do mestre o pronome possessivo não existe. O que você chama de “MINHA” prancha pode ser arrancada de você mesmo que o leash tenha a pretensão de evitar isso. Ou ela pode ser até mesmo partida em dois ou mais pedaços. O “SEU” corpo também não será mais seu, afinal se você não tem como controla-lo não pode reivindicar posse, concorda? “MEU” olho, “MEU” rosto, “MEU” joelho, “MINHAS” pernas… Nada disso será mais seu se o mar não quiser. Desafio-o e ele te manterá longe dele, forçosamente e em alguns casos, essa decisão pode causar dor – muita dor.

A condição mais deprimente para qualquer ser humano no mar é acreditar que pode enfrenta-lo ou domina-lo. Desista agora antes que ele use sua brutalidade para clarear as regras. As ondas não são suas, jamais serão. Elas não aparecerão quando você chamar e se chamar demais pode ser que se encontre o fundo da praia mais cedo do que imaginou e é melhor torcer para que seja um fundo de areia e não de pedras ou corais.

Se desejar as ondas com força demais pode ser que o mar convide você a se colocar no lugar dele, o grande problema é que seu fôlego não foi feito para cumprir esse tipo de papel.

Você não decide quando fica em pé, e também não vai ficar sentado, ou mesmo deitado pelo tempo que julgar suficiente para o seu repouso. Cada ordem se apresenta em uma linha de diferentes tamanhos e por mais que este idioma imagético não lhe seja comum, você vai ter que entende-la antes que ela decida para onde é que vai te levar.

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Uma de suas inúmeras regras está diretamente ligada ao momento presente. Se você mergulhar, mesmo que brevemente em suas expectativas ou em alguma memória e deixar de lado o momento mais valioso de sua vida, ele vai te buscar e como uma criança, sem nenhum medo, vai afundar sua cabeça na água e se isso acontecer, peça desculpas antes que ele decida voltar com a prancha em você.

Não o procure com seus medos e fraquezas e não conte como ele para curar você. A fraqueza não o interessa. O máximo que ele pode fazer é te relembrar do quão pequeno você é deixar seus problemas do mesmo tamanho. Quer um conselho? Esteja sempre preparado para o seu chamado, honre sua espera.

No tabuleiro ondulado do mestre o outro não existe, o que basicamente significa que o outro corpo em outra prancha é exatamente tão importante quanto você é. Todos merecem atenção igual e quem fugir deste formato conhecerá seus castigos. Se você não prestar atenção no outro como presta em si mesmo, o mar irá coloca-los em colisão para que o trauma nunca mais deixe você esquecer de expandir sua consciência sobre o que está ao seu redor.

O mestre é quem determina seus passos e muitas vezes é o que assume o controle da sua conduta. Com ele não tem excessos e nem o tempo todo. Quem diz a hora é ele, o lugar? Ele também. E se precisar brincar de iludir todos os waves checkers disponíveis, ele fará. Ele manda, ele conduz e também ludibria.

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Ele pode te distanciar de quem ama, se quiser. Pode fazer você entrar em dívidas de relações por sua devoção e há quem possa chama-lo de traidor ou de egoísta apenas por ter deixado de ir em alguns – ou vários – eventos pra estar com ele. Um verdadeiro obediente nunca recusa um chamado.

Quando está conectado com você – conexão definida única e exclusivamente por ele – é generoso e te faz sentir inteiro e invencível. A potência dele somada a sua essência mais desprovida de ego, verdadeira e entregue fará você experimentar prazeres que não saberá descrever depois, mas que irá fazer parte de uma lista de vícios daqueles que incomodam os que nunca provaram e por isso não entendem.

A troca de energia é genuína, ele leva tudo de você e deixa um pouco de si para o que restou do mortal que por ali passou. E exige lealdade. Se passar um tempo sem vê-lo será recebido com a mesma hostilidade que justificou sua ausência. Não se desconecte e reze sempre para que a reciproca dê as caras.

Se você domou as ondas pequenas, virão as maiores, se não as teme mais, irá encarar as mais fortes. Quando achar que a arrebentação não é mais um problema, as ondas virão de lado e a correnteza não deixará você ficar sem remar. E se o drop não é mais desafiador, as ondas cada vez mais cavadas serão sua rotina.

Ele nunca se fará constante, nem óbvio e é exatamente isso que faz do mestre, tão apaixonante.

Um brinde salgado àqueles adestrados e educados pelo mar.
Aloha, Lara Branco

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