VOCÊ SABE POR QUE O BRASIL NÃO É UM EXCELENTE PICO DE SURF?

São 8 os fatores que influenciam nessa realidade.

Quando pensamos no campeonato da elite do surf mundial, a WSL, normalmente imaginamos ondas perfeitas quebrando em paisagens estonteantemente lindas. No Brasil, Imbituba e Rio de janeiro já sediaram o evento e as paisagens ao redor das ondas até cumpriram bem a sua função, já as ondas…

Sabem como é, a “culpa” é da natureza, a falta de ondas não foi causada por ninguém e isso acontece em todo lugar. Mas não por três anos seguidos… Eis que o portal de surf mais acessado do mundo, o Surfline nos chamou na chincha questionando a qualidade de nossas ondas.

ENGLISH: Barra Da Tijuca’s steadily growing reputation for producing 2’s and 10’s has left many wondering: in a country the size of Brazil, aren’t there better waves than what were on offer at the Rio Pro?

PORTUGUÊS: …Em um país do tamanho do Brasil, não teriam ondas melhores do que as que estavam à disposição no Rio Pro?

É bizarro. Temos uma costa que equivale a aproximadamente 3 vezes o tamanho do litoral Peruano, 10 vezes a extensão da costa portuguesa e 20 vezes mais longa que o perímetro da ilha de Oahu [Hawaii] e não temos uma onda que podemos nos orgulhar por sua regularidade, perfeição e/ou força [fora algumas exceções como Fernando de Noronha, Maresias, Saquerema. Mas nada que possa se comparar as linhas perfeitas e longas da indonésia]. Partindo daí, resolvemos descobrir de onde vem esse “azar” natural, e dentre tantas características necessárias para formar boas ondas, encontramos 8 fatores negativos no litoral brasileiro que explicam porque a nossa etapa do circuito mundial volta e meia decepciona.

Vamos os fatores:

FATOR UM: Vento

Foto 1 -Dosurf:os oito faores que pioram as ondas na costa brasileira.jpg

Os ventos são os grandes responsáveis pela formação das ondas, transferem sua energia para a superfície do mar criando e aumentando a altura e o período das ondulações. Basicamente, três fatores influenciam no desenvolvimento de swells:

  1. Velocidade do vento
  2. Duração do vento
  3. Pista [área do Oceano em que o vento atua]

Quanto mais forte for o vento no lugar de formação da onda, maior ela se tornará. Quanto maior for o espaço [distância] em que o vento atuar – e se manter atuando por mais tempo – melhores e mais organizadas serão as ondas.

“O tamanho do oceano vai influenciar diretamente no período entre as ondas, e esse é o motivo pelo qual o Oceano Pacifico, com 165,3 milhões de km², gera ondulações melhores para prática do surf, normalmente com períodos mais altos que o Atlântico, que tem 82,2 milhões de km²”, explica o geólogo Daniel Knijnik.

FATOR DOIS: Swell

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A grosso modo existem dois tipos de ondas produzidas pelo vento: as vagas e as ondulações.

As vagas são as ondas que ainda estão recebendo a energia do vento. Já as ondulações são as que estão viajando pelo Oceano e que se dividem em groundswell e windswell.

A diferença entre os dois é a distância que o vento percorre em alto mar. O groundswell são as ondas formadas pelos ventos que se movem em longas distâncias até chegar à costa. Quanto mais longínqua for a tempestade, isto é, quanto maior for a distância que ela percorrer, melhores serão as ondas e maiores serão os períodos entre elas.

“Um swell que viajou 5.000 km, por exemplo, vai estar muito mais organizado que outro que viajou apenas 500 km”, esclarece o oceanógrafo Eloi Melo.

Lembrando a diferença dos tamanhos entre Oceano Pacífico e Oceano Atlântico, se percebe porque a nossa costa recebe muito menos incidência de groundswell, uma vez que a maioria das nossas ondas são formadas pelo que se denomina de “ciclones extratropicais”, com formação perto da costa.

“Um exemplo aqui pra nossa costa, das grandes tempestades longínquas, pode ser a Ilha de Fernando de Noronha, boa parte do swell que chega é oriunda de tempestades formadas no hemisfério Norte, isso implica dizer que são ondas que viajaram por muito tempo e chegam de forma organizada na costa”, afirma a oceanógrafa Deborah Aguiar.

Os continentes localizados à Oeste são naturalmente abençoados com groundswells, já que os ciclones se movem em direção Leste, o que faz ventos mais fortes soprarem de Oeste para Leste.

FATOR TRÊS: Costa

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Depois que a onda se forma, ela viaja, viaja, viaja e chega na costa, é quando ela levanta e, se torna, o que chamamos na linguagem “surfística” de linhas [*lines].

A plataforma continental é a porção de terra marítima que se estende da linha da costa até a região da talude, onde ocorre a quebra da plataforma. A extensão da plataforma interfere diretamente na formação das ondas. Quanto maior for essa porção de terra mais irregulares serão as ondas, pois os processos de perda de energia irão acontecer a partir do momento que a onda começar a sentir o chão.

Nossas ondas são prejudicadas devido a esse caminho que a onda precisa percorrer, visto que o Brasil possui uma das plataformas continentais mais extensas. Quando quebra em alto mar, a onda tem uma energia muito grande e ao viajar em direção a costa ela vai perdendo energia, força e estabilidade por causa do atrito com o fundo e os obstáculos. As ondas do Havaí, por exemplo, não passam por todo esse processo, quando quebram em alto mar, fortes e alinhadas, viajam por pouco tempo, passando por quase nenhum obstáculo.

FATOR QUATRO: Período

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Período é o intervalo entre duas cristas de onda: quanto mais longo for o tempo entre elas, mais organizada, forte e consistente uma onda será. O período depende da força que o vento sopra e a distância que ele percorre em alto mar. No Oceano Pacífico, o período das ondas é maior graças ao tamanho da área que o vento tem para atuar.

No Peru, por exemplo, o período médio é de 15 a 18 segundos, essa distância faz com que a onda entre em séries mais demoradas, alinhadas e fortes. No Brasil, via de regra, varia entre 6 e 12 segundos formando ondas mais irregulares, seccionadas.”, afirma o surf repórter Ki Fornari.

FATOR CINCO: Profundidade

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No cenário ideal, para se ter ondas perfeitas no Brasil precisaríamos de uma plataforma continental mais curta e, como consequência, ter a profundidade [tamanho da talude] mais próxima da costa, como acontece no Hawaii.

No litoral do Brasil podemos remar por 80 km e a profundidade não passa de 50 metros, comparando com os grandes picos de surf do mundo, a história é bem diferente, na Gold Coast [Austrália], Hawaii e Bali [Indonésia] à 80 km da costa você ainda está em águas profundas, ou seja, as ondas não estão sofrendo nenhuma perda de energia. Resumindo, elas chegam com mais consistência na costa.”, explica Deborah.

FATOR SEIS: Vento Maral e Terral

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A direção do vento no litoral influência muito a qualidade da onda. O vento maral, que sopra do oceano para a costa [por trás da onda], deixa o mar mexido e irregular, achatando as ondas e fazendo com que se fechem mais rápido, criando condições mais propícias para manobras aéreas, por exemplo. Já o vento Terral, que vem da terra para o mar, encontra a ondulação de frente, alisa a textura, segura a parede e levanta a crista da onda.

Normalmente, o vento sopra do lugar mais frio para o mais quente. E no Brasil, principalmente no Sul, o oceano demora muito mais a esquentar do que a terra. Por isso, a manhã tende a ser a melhor hora para se surfar já que o continente ainda não esquentou [e ainda não baixou a sua pressão atmosférica a ponto de causar o deslocamento de ar, ou a popular ‘ventaca’]. Por isso também, as ondas do Outono e Inverno proporcionam melhores condições, uma vez que os dias são mais frios e quando rola o vento terral – ele tende a perdurar por mais tempo.

Entretanto, a chegada de vento terral varia com a direção e o sentido que o vento sopra em determinadas praias. Algumas enseadas mais recortadas não dependem do vento continental para receber o terral.

FATOR SETE: Fundo

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Basicamente, existem três tipos de fundo:

  • Os beach breaks [ou fundos de areia] são os mais instáveis. Por serem facilmente maleáveis, as ressacas e marés formam buracos e bancadas irregulares interferindo na energia, velocidade e altura das ondas. Esse tipo de fundo é uma boa opção para os surfistas iniciantes, já que as ondas são menores e mais fracas. E mais uma vez, o Brasil foi escolhido para ter esse tipo de solo em quase todo o seu litoral. Legal!
    • Obs. Das 10 etapas do WCT, só 3 são de beach breaks: Brasil, Portugal e França [pela característica, consideramos a Gold Coast um pointbreak]
  • Os pointbreaks [ou fundos de pedra] proporcionam ondas mais alinhadas e geralmente mais longas. A praia do Silveira, em Santa Catarina, é uma dessas exceções brasileiras.
  • Nos reef breaks, [ou fundos de recifes ou corais] as ondas se moldam de forma perfeita e constante, devido à estabilidade da bancada natural. Porém, para se aventurar nesses picos é preciso ter mais experiência, pois a vaca em reef breaks pode render cortes e “tatuagens” permanentes. Desert Point, na Indonésia, uma das bancadas mais alinhadas do planeta é um exemplo, mesmo não tendo uma onda tão casca-grossa, até surfistas mais experientes, como o australiano Owen Wright, já deixaram um bocado de pele por lá.

FATOR OITO: Elevação do Rio Grande

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Como se não bastasse tudo isso, o Brasil foi abençoado – só que não – com uma grande montanha no fundo do Atlântico Sul – a Elevação do Rio Grande, localizada entre os estados do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. A cerca de 1,5 mil quilômetros da costa brasileira, o continente perdido tem 3.200 metros de altura e o seu pico fica 800 metros abaixo do nível do mar, conforme dados do Serviço Geológico do Brasil (CPRM – Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais).

A montanha submersa serve como uma barreira natural e é mais um dos obstáculos que a ondulação precisa ultrapassar. Quando a onda passa por cima da área montanhosa perde força, desestabiliza e viaja desorganizada até a costa.

Para efeito de comparação, da base até o cume, o Pico da Neblina localizado no norte do Amazonas, na Serra do Imeri, tem 2.994 metros. Numa licença poética podemos dizer que a montanha da Amazônia perdeu o posto de pico mais alto do Brasil [para nossa infelicidade surfística] para a Elevação do Rio Grande.

Como assim ? A montanha mais alta do Brasil é submersa? Sim, moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Mas o surf… Deixa pra lá e me traz uma caipirinha!

A solução?

O homem interfere na natureza buscando melhorar ou resolver os seus problemas. Seria possível dar a volta em Netuno e Iemanjá? Criar as tão sonhadas ondas perfeitas no Brasil? quase possível…

Logo que apareceram os primeiros projetos de bancadas artificiais, o sonho poderia ter se tornando real, mas não foi dessa vez. Elas até chegaram a ser instaladas em alguns lugares, como na Inglaterra, na praia de Bournemouth e em Kovalam, na Índia.

Feitas com sacos de areia gigantes, as bancadas não funcionaram exatamente como o planejado e atuaram mais como beach break do que reef breaks. Como nos beach breaks, as marés modificaram a estrutura artificial criando fortes correntes e, eventualmente, os sacos se rasgaram. Enquanto esses projetos criados pelo homem não funcionam 100%, vamos nos divertir com as nossas ondas do jeito que são, afinal de contas poderia ser pior e quando a natureza encaixa… Não temos do que reclamar!

FONTE

  3 comments for “VOCÊ SABE POR QUE O BRASIL NÃO É UM EXCELENTE PICO DE SURF?

  1. 17 de Março de 2017 às 13:37

    Olá amigos!!! Quanto tempo! rsrs Nossa, que texto rico em conteúdo! Não que os outros não sejam, mas neste aprendi muita coisa! Uma verdadeira aula de Geografia! E já que não sou surfista ainda, vou aproveitando as “marolinhas” pelo nosso Brasil mesmo… rsrs 😉

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